Paulo Boare no podcast PodSer Singular

O Meu Sistema Operacional: TEA.

Como Entender Meu Funcionamento Mudou Minha Vida

Quem acompanha meu trabalho ou minhas publicações sabe que sou fascinado por produtividade, métodos e otimização do tempo. Gosto de entender como as coisas funcionam para poder torná-las melhores. O que talvez muitos não saibam, é que essa busca por entender sistemas e processos se aplica profundamente à minha própria vida. E essa busca ganhou um novo nível de clareza após um diagnóstico tardio de Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Recentemente, tive o prazer de participar do podcast PodSer Singular (episódio #03), onde compartilhei um pouco da minha jornada. Falamos abertamente sobre como foi crescer sentindo-se diferente, buscar respostas e, finalmente, receber um diagnóstico que trouxe imenso alívio e explicações para muitas coisas que sempre pareceram confusas na minha cabeça.

Essa sensação de confusão, que mencionei no podcast, é algo que muitas pessoas com diagnóstico tardio de TEA relatam. É como se eu tivesse nascido em um mundo onde todos receberam um manual de instruções… menos eu. Regras sociais pareciam arbitrárias, o contato visual era desconfortável e, em qualquer contexto, eu frequentemente me percebia como o “estranho do grupo”. Coisas que para os outros eram naturais – como entender ironias ou saber a hora certa de falar – para mim exigiam esforço consciente… ou simplesmente não faziam sentido.

“A sensação que eu tenho é que eu nasci e vim para um mundo onde todo mundo teve acesso a um manual de instrução e eu não tive…”

Paulo Boare

Essas experiências ecoam muitos dos critérios diagnósticos do TEA. Dificuldades na comunicação e interação social, como limitação na reciprocidade e na comunicação não verbal, além de padrões restritos ou repetitivos – como interesses específicos (minha paixão por matemática e tecnologia desde cedo) e a necessidade de planejar tudo com precisão – sempre fizeram parte da minha infância e adolescência. Sempre fui muito literal, e a hipersensibilidade a estímulos sensoriais (como não gostar de lugares cheios e barulhentos) também marcava o meu dia a dia.

Por muito tempo, vivi essas dificuldades sem entender o porquê. Quando busquei meu primeiro emprego, até ouvia elogios e passava de fases, mas não era contratado. Isso me deixava perdido. Mais tarde, quase por acaso, virei professor, algo que eu evitava ativamente. Aquilo me jogou num desafio social imenso. Planejar cada aula com minúcia me deixava exausto.

O diagnóstico, muitos anos depois, não “criou” essas características. Ele deu nome a elas. E isso fez toda a diferença. Ver um conteúdo sobre o assunto e pensar “sou eu” é algo indescritível. É como finalmente entender o “sistema operacional” que roda na minha mente. Não é um sistema “errado” ou “anormal” – ele apenas funciona de forma diferente.

Essa compreensão mudou tudo. Em vez de lutar contra quem eu sou ou me sentir “quebrado”, passei a enxergar minhas características como parte de um sistema distinto. Isso me permitiu trabalhar melhor nas minhas dificuldades e aceitar desafios com mais estratégia. A minha característica de “topar desafios”, por exemplo, ficou mais eficiente depois do diagnóstico.

Percebi que minha tendência a analisar tudo profundamente e buscar padrões – antes vista como “excesso de pensamento” ou ansiedade – é uma ferramenta poderosa. Ela me ajuda a entender tanto o mundo ao meu redor quanto meu próprio funcionamento. Isso me permitiu desenvolver estratégias conscientes para lidar com situações sociais, melhorar minha comunicação e lidar melhor com a necessidade constante de planejamento.

Assim como costumo dizer nos meus artigos sobre hábitos, onde falo que o progresso é feito “tijolinho por tijolinho”, entender e navegar pelo TEA também é um processo contínuo de autoconhecimento e adaptação. Não se trata de “curar”, mas de otimizar a forma como meu sistema opera, para que eu viva com mais leveza e qualidade.

Minha experiência me ensinou algumas lições valiosas:

  • Se você sente que há algo diferente em você, não hesite em buscar respostas. O autoconhecimento só fortalece.
  • Procure profissionais que realmente entendam o perfil neurodivergente. A falta de preparo pode causar frustrações desnecessárias.
  • Entender seu próprio “sistema operacional” não é uma desculpa para evitar desafios, e sim uma ferramenta para enfrentá-los com mais eficiência e menos desgaste.

Compartilhar essa história no PodSer Singular foi um passo importante para mim, e acredito que possa inspirar outras pessoas também. Se quiser ouvir o episódio completo – com mais detalhes sobre minha trajetória, os desafios enfrentados (como o desespero de virar professor da noite para o dia!) e a conversa que tive com Vitória Pacheco e Rafaela Melo sobre neurodiversidade e diagnóstico na vida adulta – convido você a assistir ao episódio #03.

Entender quem você é e como você funciona é o primeiro e mais importante passo para construir a vida que deseja. E, às vezes, a resposta está em aceitar que seu sistema é apenas… diferente.